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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Um Instante no Nosso Quintal

Minha Mãe, Dona Tarsilla, alí na esquina de casa, observando um arco-iris... Foto da minha irmã, Myrian Tereza.

Tradição significa trazer, entregar, ensinar, transmitir... É como uma semente que faz com que as coisas se perpetuem... É Natal?... Então vamos para Iguape, comemorar a data com a família. 




Já em casa, estava ali sentadão sozinho num lugar em que meu pai gostava de ficar, no quintal, embaixo de um beiral, sem nenhum saudosismo e com um olhar até que prático, observando alguns detalhes da casa, o telhado e o piso que estão bacanas, as plantas e a hortinha de Tarsilla, minha mãe; coisas normais como as paredes e os muros que vão precisar de uma tinta em breve, as janelas e portas que já estão pedindo um novo verniz e tudo mais que compõe aquele espaço especial e mágico que, como um palco antigo (quase 400 anos), ali pendurado no tempo, já foi e vai continuar sendo cenário de tantas coisas de nossas vidas... Quantos quintais familiares não são assim? Não é mesmo?... Tava ali tranquilão quando, de repente, quase caí da cadeira... 


Como se tivesse sido atingido por algo, algumas peças e detalhes daquele quintal saltaram à minha vista e formaram um conjunto único, identificável e familiar de coisas que até então estavam soltas por ali. Se destacaram balaios, redes, panelas, paredes antigas e outras coisas dali que trouxeram à minha consciência um tipo de confirmação do que eu já sabia... Sou mesmo um caiçara! E me orgulho dessa minha origem... Somos do cóvo, da canoa, do "robalínio", da vivóca, como eu digo às minhas irmãs... 

Dá uma olhada aí... 





Como se não bastasse esse “tapa”, levantei da cadeira e quando me virei para pegar outra cerveja, dei de cara com uns quadrinhos que minha irmã fez, colocou ali na parede e que já os li um montão de vezes, mas cada vez que a gente os lê, percebe de um jeito diferente. São coisas que meu pai escreveu, e neste está lá o seguinte texto de Dito Veiga... 

Para Tarsilla 

Veja, Tarsilla, esse vento lá fora, 
vergando gerânios vermelhos no jardim! 
É como as procelas da vida, embora 
não nos desalinhem a alma, tanto assim! 

Olha, daqui, querida, como as vidraças 
velhas, ao impacto do sul arquejam! 
Vivem nesses casarões de tintas baças 
amores tantos que no amor se arejam... 

A chuva que desce em goteiras pelo beiral 
a calçada cinza, longa, larga e nua 
embala meu sonho, engalana o vendaval 
com borrifos de prata em chispas na rua


Eita!... É hoje! Pensei... Mas o negócio ainda não tinha acabado. Virei um tantinho a cabeça e num outro quadrinho, também escrito pelo meu pai, tava lá o seguinte texto: 

Amigo, nossa casa também é sua! 

Aqui, fale com franqueza ao vento, ele levará e deixará ao longe, nas quebradas, todos seus lamentos ou talvez sua ufania. 

Adentre a floresta, iluminada pelo sol, e medite à beira das cascatas – elas sabem de você e de suas origens; vá acolá e ame o mar – ele o envolverá na alvidez de suas espumas, no buliço de seu marulho e na quietude ou no vigor de suas águas e consentirá que você repouse em suas praias nuas e ensolaradas. 

À noite, com todo seu arrebatamento de mortal, contemple estes céus sem fim e confie à lua, às nuvens e às estrelas algo que você esqueceu de falar ao vento – elas jamais dirão a alguém. 

Ao final de tudo, creia em Deus! Foi ele quem fez tudo isso e permitiu que você estivesse hoje aqui, conosco. 

Quando você quiser. Volte! 

Respirei fundo, me aprumei e, já pensando em trocar a cerveja por uma cataia, só agradeci a Deus por tudo... e dava para fazer outra coisa?... 


... Pai, as andorinhas ainda continuam vindo lá dos lados da Igreja do Rosário, fazendo aquele vanzeiro por cima dos telhados... alegrando nosso quintal no final da tarde... 


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Esse Nosso Oceano...

Uma homenagem a meus avós Antonio e Orlinda; a meus pais Dito Veiga e Tarsilla; a minhas irmãs; a meus tios Celso Veiga, Mingo, Zulmirinha, Maneco, Dito Lula, Ernesto, Donga, Nitinho e Nesi; a meus primos Antoninho, Minguinho, Magno, Zé Rubens, Cláudia, Tchelo e mais uma grande duma turma; a Genésio, Amâncio, Gregório, Hilário, Rosalino e tantos outros caiçaras, como eu, que amaram e amam o mar...

Tarsilla e Dito, meus pais...
O Oceano sempre alí, ao alcance das mãos, dos olhos e do coração... 
Os homens sempre viram nos mares e oceanos um paradoxo da natureza. Fonte de vida e ao mesmo tempo uma terrível força destruidora, os mares e oceanos são simultaneamente uma barreira e um caminho, separando e unindo a humanidade. Muitos cantaram sua beleza e também manifestaram espanto ante a fúria de suas investidas ou o mistério de suas profundezas. O mar nos encanta, nos inspira, mexe com os nossos mais profundos sentimentos.


Este mundo de águas que cobre dois terços do planeta nos gera uma curiosidade quase genética, um impulso apaixonado que nos move em direção a superação de nossos próprios limites para a exploração de seus mistérios. À medida que se amplia a consciência que o homem tem de seu próprio mundo e do universo, fica mais clara a noção de que o mar não apenas fornece muitos meios para nosso sustento, como também assegura nossa própria existência.

O que chamamos de vida surgiu no mar, foi aí que se originou a matéria prima básica de todos os seres vivos há alguns bilhões de anos, porém, de que maneira o mar produziu vida não sabemos dizer com precisão. Em suas águas aquecidas, vagamente iluminadas, as condições desconhecidas de temperatura, de pressão e de salinidade devem ter se constituído nos elementos críticos para a criação da vida a partir de elementos sem vida.


De algum modo o mar produziu algo que nem os alquimistas, com seus cadinhos, nem os cientistas com seus mais modernos equipamentos e seus mais elevados conhecimentos conseguiram obter, moléculas complexas de aminoácidos que tiveram a habilidade de se reproduzir e principiar o fluxo infindável da vida.

A vida, como a conhecemos, existe apenas dentro de uma faixa estreita de temperaturas. Embora alguns seres consigam sobreviver nas regiões mais geladas da Terra, e apesar de existirem organismos simples vivendo confortavelmente nas águas muito quentes das fontes termais e das “chaminés”, fissuras e fendas de vulcões submarinos, os limites de temperatura que a matéria viva suporta coincidem com os limites de temperatura dentro dos quais a água existe em estado líquido.


Isto não chega a ser uma surpresa, pois todos os seres vivos não apenas usam água, mas também são em grande parte constituídos de água. Setenta por cento do corpo humano é constituído de água, 1/3 da qual se encontra no sangue e nos outros fluídos do organismo, e 2/3 dentro de nossas células. Além disso, a composição química do sangue humano é muito próxima à da água do mar. No sangue se encontram todos os elementos presentes no mar, embora em proporções diferentes.

É o mar que preside todo o sistema natural que constitui o meio ambiente do homem e também é ele, mais do que qualquer outra característica física do nosso planeta, que dá lhe singularidade. Se em algum ponto do espaço um astrônomo extraterrestre se dispusesse a estudar nosso sistema solar, provavelmente chamaria de Oceano nosso planeta e não de Terra. O que mais o impressionaria, distinguindo-o dos demais satélites do Sol, seria a vasta e brilhante camada de água que cobre permanentemente dois terços do globo. Nenhum outro mundo ao alcance de nossa visão e de nossos mais sofisticados equipamentos possui um oceano semelhante.

Créditos da Imagem: Google Earth

Nosso planeta, contudo, apresenta-se quase inteiramente submerso. Apenas 29% de toda a crosta terrestre se eleva acima dos grandes oceanos que escondem todo o restante da superfície sob uma camada líquida cuja espessura média chega a 3.900 metros. Quatro vezes e meia a altitude média dos continentes. O hemisfério norte é constituído por 50% de água e o hemisfério sul por 90%. Estas águas são os oceanos Índico, Ártico, Antártico, Atlântico e Pacífico. Divisão apenas teórica, educativa, já estes oceanos estão unidos e a água circula livremente por eles tornando os continentes, meras ilhas em um vasto oceano.


97% da água do planeta está nos oceanos. Se todas as massas sólidas – continentes, ilhas e montanhas - pudessem ser arrancadas de seus fundamentos, deslocariam somente 1/18 do volume total de água das bacias oceânicas. E, se todas as irregularidades da crosta terrestre pudessem ser aplainadas, transformando o planeta em uma esfera lisa, os mares e oceanos submergiriam completamente o globo em uma camada de água com aproximadamente 2.600 metros de profundidade.

Todas as águas que correm sobre a terra firme originaram-se do mar e dele provêm diariamente. As grandes bacias oceânicas do planeta contêm cerca de 1.200 milhões de quilômetros cúbicos de água salgada. A evaporação retira anualmente 320 mil quilômetros cúbicos desse grande reservatório. Esse volume de água retorna sob a forma de chuvas que alimentam os rios e terminam por desaguar novamente no mar. Mais de 100 mil quilômetros cúbicos de chuva caem anualmente sobre os continentes, reabastecendo de água doce os lagos, rios e fontes dos quais dependem todos os animais e plantas existentes sobre a Terra.


Podemos dizer que o futuro da humanidade está no mar, com seus imensos recursos ainda basicamente inexplorados e em grande parte desconhecidos. Sem sombra de dúvida os oceanos ajudarão a decidir se nosso planeta continuará ou não habitável.

Ao lado do grandioso desafio que representa o desenvolvimento racional e sustentável da exploração dos recursos dos mares e oceanos, surge a necessidade urgente de impedir que a devastação ecológica disseminada pela moderna sociedade industrial atinja irremediavelmente os oceanos. Já degradamos o meio ambiente de baías, estuários, manguezais, golfos, e grandes regiões costeiras, impossibilitando que a vida se manifeste com toda sua intensidade e diversidade natural.


No momento em que nos voltamos para o oceano como fonte de vida, e não simplesmente de recursos, poder e aventura, o homem é obrigado a conhecer melhor esta imensidão de águas e a assumir seu dever de preservá-lo de si mesmo, para não ser destruído junto com ele. Mesmo com todos nossos conhecimentos, com todos nossos instrumentos e com toda nossa tecnologia, ninguém é capaz de dizer que algum dia chegaremos a esclarecer todos os últimos mistérios do oceano.


Os ventos que sopram sobre a Terra foram embalados na ampla extensão dos oceanos e buscam sempre para lá retornar. Os continentes se dissolvem e ao oceano se juntam, grão a grão de terra erodida. As chuvas do oceano se erguem e voltam de novo para ele na forma de rios. A vida teve nele suas vagas origens e talvez a ele retorne após várias transmutações. O oceano, como o eterno fluir do tempo, talvez seja de um só modo o começo e o fim...


Inspirado no Livro, "O Mar Que Nos Cerca" de Rachel L. Carson

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Abrindo o "Farné"

Um dia fui para São Paulo só para nascer, fui criado e vivo em Santos, mas foi lá no Vale do Ribeira, em Iguape onde descobri uma das melhores coisas que sou... um Caiçara!
Casa da Família em Iguape

“O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos”
Marguerite Yourcenar - Escritora

Vivendo num familhão, em uma casa sempre cheia e graças a Deus farta, tive o privilégio de crescer cercado de excelentes cozinheiras, cozinheiros e ótimas pessoas que compartilharam comigo seu amor pela cozinha, seus talentos e me ajudaram a gostar de cozinhar, conhecer ingredientes e os preparos dos mais variados pratos da cozinha caiçara. Sempre aprendendo, ainda estou longe de ser um bom cozinheiro, a galera já vem reclamando menos (risos) e até elogiado... acho que tenho ido no caminho certo.

O Cozinha Tradicional Caiçara tem como missão ser uma referência útil e uma fonte confiável de consultas sobre a culinária caiçara e sobre os aspectos socioculturais que a envolvem. É também uma forma de agradecimento e uma homenagem a:

  • Minha mãe Tarsilla Fortes que me ensinou a gostar de receber, me levou pelo caminho das pedras na beira do fogão e me encharcou com a cultura caiçara. Até hoje ela me traz de Iguape farinha manema, coentro de folha, mudas de alfavaca, manjubas, moranguinhas, palmito, maracujá doce e outras delícias caiçaras;
Benê e Sila
  • Meu pai, Dito Veiga, que apesar de não saber fritar nem um ovo tinha um paladar refinado e gostava demais da comida de sua terra. Ele não gostava muito, mas me deixava ficar na cozinha observando o pessoal e, depois de muito relutar, comprou minha primeira frigideira quando eu tinha uns 11 ou 12 anos. Qualquer coisa... a culpa é dele.

  • Vovó Antoninha, cozinheira, boleira e doceira de mão cheia que "saramilhou" minha memória gastronômica de delícias. O pudim de pão e os suspiros que ela fazia aos montes, são inesquecíveis.

  • Minhas irmãs, Myriam, Mariângela, Marília e Maria Fernanda, todas cozinheiras das boas que me ensinaram muito, compartilham comigo o gosto pela cozinha caiçara e sabem como é delicioso, aconchegante e revigorante uma mesa cheia de boas conversas, boas histórias e é lógico muitas, muitas risadas... Meninas, isso é o que nos vale!

  • Chica, Mirtes e Beth, ligeirinhas na cozinha caseira caiçara. Os pratos do dia a dia como o peixinho frito com arroz, feijão, pirão e saladinha, o chuchu ensopadinho com camarão, o caranguejo cozido, o bolinho de marisco, o feijão gordo, a paçoca de carne seca com banana... tudo simples e inesquecível;

  • Saulo, excelente cozinheiro, apaixonado por servir bem, habilidoso na apresentação dos seus pratos (só podíamos sentar e comer depois que ele admirava a mesa pronta e os pratos feitos e postos por ele). Gostava de tomar um "tréco de méco" e como tudo que fazia era divino, de vez em quando recebia algumas orientações “do além”;

  • Marilza, fantástica cozinheira que conhece tudo de peixes, frutos do mar e tantas outras coisas, preparando tudo na mais fina tradição caiçara. O Risole de Camarão da Marilza é inacreditável!

Entre outras figurassas raras daquelas que temos o privilégio de encontrar em nossas vidas: Tio Dito Lula e sua cozinha rústica de caça e pesca – Viva a Mata Atlântica! Viva a Juréia!; Seo Sidnei da Farmácia e seu inesquecível Arroz Assim com Frango Tipo Barra; Tchelo e seus pescados, seus defumados, a danada da gordurinha de caranguejo e o arroz com marisco faca do mangue; Minginho, Magno, Tuca e a “cozinha experimental aberta” do Barracão; Bigú e a tatuíra fritinha do Apostolado e mais um monte de gente boa e seus pratos maravilhosos.


Você pode colaborar com o CTC (Cozinha Tradicional Caiçara) enviando uma receita, descrevendo um ingrediente, contando uma história interessante ou descrevendo um personagem ligado ao tema, etc. É só me enviar um e-mail. Será um grande prazer publicar sua colaboração.

Se você fica meio "aturdido(a)" na hora de fazer aquele delicioso prato caiçara, pare de "zanzar" por aí. Aqui você encontra uma "batelada" de coisas gostosas. “Abolete-se” um pouco, sinta-se a vontade e desfrute...

Coma que tem mais na panela! 

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